Repelente ultrassônico de tomada: 210 mil vendidos, nota 4,5 — e o mosquito nem escuta o aparelho
Ele custa R$ 20 e jura espantar mosquito, barata e rato com um som que só as pragas ouviriam — sem veneno, em todos os cômodos. Tem nota 4,5. Mas cumpre? 🔴
Todo dia nasce um anúncio de produto "revolucionário": o achado que promete mudar a forma como algo sempre foi feito, ou transformar um pesadelo doméstico em milagre. Quase sempre por um preço bom demais pra ser verdade. E isso tem um custo, que costuma sobrar pra quem compra.
O Raio-X nasceu pra combater essa manipulação de marketing selvagem. A gente pesquisa o TIPO de produto a fundo e consolida o que importa — a armadilha ou a confirmação de que presta — com fonte à vista, e te devolve os critérios pra decidir sozinho. Não é o selo forense do dossiê: é o que a pesquisa abrangente mostrou, sem teste com as mãos. A furada nunca leva link de compra, de propósito — quando existe um caminho que presta pra mesma necessidade, o link é dele. Quando é furada, o alerta é o produto.
Risco alto de você se dar mal
O mosquito nem escuta o ultrassom, e o próprio vendedor admite que o som não passa da parede — os "150 m²" morrem no primeiro cômodo. Custa o mesmo que uma tela ou um repelente de pele que passaram por teste de eficácia. Por dar sensação de proteção contra a dengue sem entregá-la, o veredito é 🔴 risco alto.
O veredito da nossa pesquisa, não um teste com as mãos · risco do TIPO, não da sua unidade · o caminho está auditável abaixoRepele ratos, baratas, mosquitos, aranhas e pulgas com ondas sonoras de alta frequência, insuportáveis para pragas.” · “Cada dispositivo protege até 150 m², criando uma barreira eficiente contra infestações em todos os cômodos da casa.” · “Resultados visíveis em apenas 48 horas de uso contínuo.

Não. O mosquito nem escuta esse som — e quem vende admite que o ultrassom não passa da parede, então os 150 m² morrem no primeiro cômodo. E o aparelho é montado pra nunca poder ser desmentido — não existe resultado que prove que ele falhou. Como é vendido até contra o mosquito da dengue, a conta não é R$ 20 jogados fora: é uma sensação de proteção que você não tem.
▼ a prova, com quem vende falando, abaixo
Visto em: Shopee · Amazon · +210 mil vendidos só na Shopee · Análise de 15/07/2026 · isto muda; a gente revisita
O que é esse aparelho de tomada?
Por que ele não funciona
O mosquito não escuta o som; o rato escuta e não liga
- Contra mosquito, a falha é de audição. Os neurônios auditivos do mosquito respondem entre 85 e 470 Hz (medição publicada no Journal of Experimental Biology) — e a ficha de um desses aparelhos declara 22.000 a 50.000 Hz, de cinquenta a cem vezes acima do que o bicho capta. Não é que o som incomode pouco: ele não chega a ser ouvido.
- Contra rato, ele ouve — e se acostuma. Rato e camundongo escutam bem nessa faixa, mas, como registrou a agência de defesa do consumidor americana, o roedor se habitua e volta pro mesmo canto. Um laboratório de audição animal anotou de passagem: “apesar da procura intensa por sons que afastem animais, nenhum foi encontrado”.
- A barata não responde nem com o som varrendo todas as frequências. Um estudo usou um gerador de banda larga justamente pra não deixar frequência de fora: nenhuma resposta. Em outro, com nove aparelhos comerciais, entrou o mesmo número de baratas nas salas com e sem som.
Morrem na primeira parede — dito por quem vende
Um vendedor de repelente ultrassônico escreveu, no Reclame Aqui (out/2025), que “nenhum aparelho ultrassônico disponível no mercado tem capacidade de atravessar barreiras como forros, paredes, portas ou vidros” — é o vendedor entregando a categoria inteira. E outro fabricante, respondendo a uma reclamação (jan/2023), informou que o alcance real do dele é um raio de 3 metros, cerca de 27 m². O mercado anuncia 150, e até 200. Uma casa de 150 m² tem paredes.
A marca é, literalmente, “Genérico” — e custa o mesmo que o que resolve
No anúncio da Amazon que examinamos, o campo de marca traz a palavra “Genérico”, escrito assim. Isso tem uma consequência: não há empresa contra quem reclamar. As reclamações que a gente achou são contra marcas que têm nome e CNPJ — e essas responderam. O silêncio do anônimo de R$ 12 não é elogio; é ausência de réu. E o preço não salva: na mesma checagem, um repelente de pele com icaridina (que só entra na prateleira depois de provar eficácia contra o Aedes) custava R$ 15 a R$ 45; uma tela ou mosquiteiro, R$ 27 a R$ 110. O que não funciona custa igual ao que funciona.
Então por que tanta gente elogia?
Precisa ser dito com todas as letras: tem muita gente satisfeita, e essas pessoas não são bobas. É aqui que mora a coisa mais interessante desta página — porque a melhor prova contra o aparelho veio de quem gostou dele.
O anúncio mais avaliado que achamos na Amazon (1.369 avaliações, nota 3,6) tem 48% de cinco estrelas. Quase metade de mil e trezentas pessoas deu nota máxima a um aparelho que o mosquito não escuta e cujo som não passa da parede. Não é burrice — é o que acontece quando o produto é montado pra que nenhum resultado o desminta: quem plugou numa semana sem barata deu cinco estrelas de boa-fé.
E aí vem a avaliação mais reveladora que lemos — cinco estrelas, título “Perfeito!”: “funciona mesmo… O produto só começa a fazer efeito depois de uma semana na tomada… Não serve para moscas e pernilongos, más é perfeito para ratos, morcegos e baratas. Eu comprei um para cada cômodo da casa.” Elogiando, ela escreve o que a página inteira demonstra: que “não serve para pernilongo” (exatamente o que a audição do mosquito prevê) e que precisou de um por cômodo (exatamente o que se precisa quando o som não passa da parede — e foi o bolso dela que pagou). Nenhum crítico escreveu uma acusação melhor que essa cliente satisfeita.
Como reconhecer essa armadilha sozinho
Se nenhum resultado pode desmentir, é armadilha
É o sinal que você leva pra vida inteira. A ficha de um desses aparelhos chega a instruir: “nos primeiros dias, é normal que apareçam ainda mais pragas — elas estão apenas tentando sair”. Quando um produto se blinda assim, a pergunta não é “será que funciona?”, é “como eu saberia se NÃO funcionasse?”. Se não há resposta, desconfie.
O prazo que estica é irmão da armadilha
O anúncio promete 48 horas. Um fabricante pediu 10 dias ligado direto — e, na mesma resposta, já ofereceu a troca “caso não tenha efeito”. Quem tem certeza de que o produto funciona não prepara a devolução no mesmo parágrafo em que estica o prazo.
O número do anúncio contra a conta do vendedor
Você já viu a régua aqui em cima: 150 m² anunciados × 3 m de alcance real, e o próprio vendedor dizendo que o som não passa da parede. Tem ficha que faz as duas afirmações no mesmo parágrafo: vende “até 110 m²” para “hotel, hospital, escritório” e avisa, na frase seguinte, que “as ondas não atravessam as paredes”. Hotel e hospital são feitos de quartos.
Procure o número de registro — e veja onde ele não está
Repelente de verdade tem número de registro no rótulo, e ele só sai depois de provar eficácia. Fomos à página oficial da Anvisa: na explicação de quais repelentes ela registra, a palavra “ultrassom” não aparece uma única vez. Sejamos exatos: a Anvisa não diz que o aparelho não funciona — ela simplesmente não o trata como repelente. É um produto vendido como repelente que nunca passou pela porta onde se prova que repele.
Ultrassom não é picaretagem — o que não existe é o “faz tudo”
Som controla praga, sim: ultrassom é usado, com resultado medido, contra a traça do grão armazenado. Só que sob condições exatas — uma praga só, um som desenhado pra ela, ambiente fechado. O aparelho da sua sala promete rato + barata + mosquito + aranha + pulga ao mesmo tempo, com onda genérica, num cômodo de portas abertas. Desconfie sempre do que resolve cinco problemas diferentes com um botão só.
E aí, o que resolve de verdade?
Contra mosquito, o que funciona custa o mesmo — ou menos

O caminho certo: barreira física + repelente de pele registrado
Você entrou nessa pra manter mosquito longe de você dentro de casa, sem espalhar veneno no ambiente. Isso existe, funciona e custa o mesmo — ou menos.
A barreira física resolve sem química nenhuma. O Ministério da Saúde lista telas e mosquiteiros entre as formas de se proteger do mosquito da dengue; e quando foram medir, a picada dentro de casa caiu de 6,75 por pessoa/hora para zero com tela comum, sem inseticida. A mecânica é essa: parede o ultrassom não atravessa, mas tela o mosquito não atravessa. E o repelente de pele é o oposto exato do aparelho desta página — a Anvisa é literal: os registrados “tiveram sua eficácia comprovada para ação em mosquitos da espécie Aedes aegypti” (icaridina, DEET, IR3535). Não é a marca dizendo que funciona; é a condição pra poder ser vendido.
A ressalva que fazemos contra o nosso próprio indicado vem da Cochrane (uma rede internacional que junta todos os estudos sobre uma pergunta e avalia o conjunto — a evidência mais forte que existe em saúde): numa revisão sobre repelentes de pele, ela concluiu que “não há evidência suficiente para concluir que previnem malária”. Isso não desmente a Anvisa — são perguntas diferentes: a Anvisa testa se o produto afasta o mosquito de você (e isso está comprovado); a Cochrane mediu se distribuir repelente reduz a doença numa população inteira. Pra sua casa, vale a primeira — mas você merece saber das duas, inclusive quando a segunda incomoda o que a gente indica.
Apontamos pra um repelente de pele com icaridina registrado, não pro aparelho de tomada. O preço é uma faixa de propósito, e existem outros registrados mais baratos — o que importa é o número de registro no rótulo, não a marca. Comprar por aqui ajuda a manter o Auditor de pé, sem custo a mais pra você e sem mudar uma linha do que a gente escreveu.
Já comprei. E agora?
Não achamos teste de campo publicado do aparelho de tomada, acima de 20.000 Hz, contra o mosquito da dengue dentro de uma casa brasileira — esse estudo parece não existir, e é onde um fabricante bateria. Também não encontramos relato de aparelho que esquentou ou pegou fogo, nem nenhuma ação de Anvisa, Procon, Inmetro ou Ministério Público brasileiro sobre este tipo (as ações que citamos são dos EUA e valem lá). E não sabemos explicar a distância entre as notas — 4,5 na Shopee contra 3,1–3,6 na Amazon; os números são reais, as amostras bem diferentes, e a causa a gente não apurou.
De onde tiramos isso
O compromisso editorial do Auditor do Consumidor são os FATOS; as informações desta página são baseadas em dados de pesquisa em fontes públicas da internet. Lemos por inteiro cada fonte citada:
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Neurônios do mosquito: resposta entre 85–470 HzJ. Experimental Biology, 2017
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Extensão universitária: sonoros comerciais ineficazes contra barata/formiga/percevejo; “o que funciona”Univ. Arizona Coop. Extension
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Unicamp: mais picadas com repelentes eletrônicos comerciais ligadosJ. Vector Ecology, 2010
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Tela comum, sem inseticida: picada caiu de 6,75/pessoa-hora pra zeroTrop. Med. Infect. Dis., 2024
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Repelentes elétricos de ambiente: pior desempenho (~1/3 de redução)eBioMedicine, 2025
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FTC questiona alegações de metragem e repelência ultrassônica (2002)Federal Trade Commission
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FTC adverte 60+ fabricantes: “aparelhos de ultrassom não controlam insetos” (2001)Federal Trade Commission
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Faixa do repelente de pele com icaridina: R$ 14,99–34,99 · 15/07/2026Farmácias São João
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Alguns botões de loja desta página usam link de afiliado: comprando por eles, uma pequena comissão ajuda a manter o Auditor — sem custar nada a mais pra você. E a regra que não muda: página de risco alto nunca leva link do produto analisado; quando existe um caminho que presta pra mesma necessidade, o link é dele. Política completa





